Como usar
os gêneros para ensinar leitura e produção de textos
Anderson
Moço
Como usar os gêneros nas aulas de Língua
Portuguesa?
Todo dia, você acorda de manhã e pega o jornal para
saber das últimas novidades enquanto toma café. Em seguida, vai até a caixa de
correio e descobre que recebeu folhetos de propaganda e (surpresa!) uma carta
de um amigo que está morando em outro país. Depois, vai até a escola e separa
livros para planejar uma atividade com seus alunos. No fim do dia, de volta a
casa, pega uma coletânea de poemas na estante e lê alguns antes de dormir. Não
é de hoje que nossa relação com os textos escritos é assim: eles têm formato
próprio, suporte específico, possíveis propósitos de leitura - em outras
palavras, têm o que os especialistas chamam de "características
sociocomunicativas", definidas pelo conteúdo, a função, o estilo e a
composição do material a ser lido. E é essa soma de características que define
os diferentes gêneros. Ou seja, se é um texto com função comunicativa, tem um
gênero.
Na última década, a grande mudança nas aulas de
Língua Portuguesa foi a "chegada" dos gêneros à escola. Essa mudança
é uma novidade a ser comemorada. Porém muitos especialistas e formadores de
professores destacam que há uma pequena confusão na forma de trabalhar.
Explorar apenas as características de cada gênero (carta tem cabeçalho, data,
saudação inicial, despedida etc.) não faz com que ninguém aprenda a,
efetivamente, escrever uma carta. Falta discutir por que e para quem escrever a
mensagem, certo? Afinal, quem vai se dar ao trabalho de escrever para
guardá-la? Essa é a diferença entre tratar os gêneros como conteúdos em si e
ensiná-los no interior das práticas de leitura e escrita.
Essa postura equivocada tem raízes claras: é uma
infeliz reedição do jeito de ensinar Língua Portuguesa que predominou durante a
maior parte do século passado. A regra era falar sobre o idioma e memorizar
definições: "Adjetivo: palavra que modifica o substantivo, indicando
qualidade, caráter, modo de ser ou estado. Sujeito: termo da oração a respeito
do qual se enuncia algo". E assim por diante, numa lista quilométrica.
Pode até parecer mais fácil e econômico trabalhar apenas com os aspectos
estruturais da língua, mas é garantido: a turma não vai aprender. "O que importa
é fazer a garotada transitar entre as diferentes estruturas e funções dos
textos como leitores e escritores", explica a linguista Beth Marcuschi, da
Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
É por isso que não faz sentido pedir para os
estudantes escreverem só para você ler (e avaliar). Quando alguém escreve uma
carta, é porque outra pessoa vai recebê-la. Quando alguém redige uma notícia, é
porque muitos vão lê-la. Quando alguém produz um conto, uma crônica ou um
romance, é porque espera emocionar, provocar ou simplesmente entreter diversos
leitores. E isso é perfeitamente possível de fazer na escola: a carta pode ser
enviada para amigos, parentes ou colegas de outras turmas; a notícia pode ser
divulgada num jornal distribuído internamente ou transformado em mural; o texto
literário pode dar origem a um livro, produzido de forma coletiva pela moçada.
Os especialistas dizem que os gêneros são, na
verdade, uma "condição didática para trabalhar com os comportamentos
leitores e escritores". A sutileza - importantíssima - é que eles devem
estar a serviço dos verdadeiros Conteúdos os chamados "comportamentos
leitores e escritores" (ler para estudar, encontrar uma informação
específica, tomar notas, organizar entrevistas, elaborar resumos, sublinhar as
informações mais relevantes, comparar dados entre textos e, claro, enfrentar o
desafio de escrevê-los). "Cabe ao professor possibilitar que os alunos
pratiquem esses comportamentos, utilizando textos de diferentes gêneros",
afirma Beatriz Gouveia, coordenadora do Programa Além das Letras, do Instituto
Avisa Lá, em São Paulo.
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